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Cultura Popular e cidadania na formação d’um País
28/10/2019 20:35 em Novidades

Assis ÂngeloResumo:

Francisco de Assis Ângelo, jornalista, pesquisador, poeta, entre outros, é fundador do Instituto Memória Brasil, acervo de riqueza inestimada que mantém em sua própria casa. As linhas abaixo são o resultado de uma entrevista realizada em seu instituto, tendo como roteiro a palestra apresentada durante o I Encontro Internacional de Discotecas. Assis Ângelo não mede palavras para defender a importância da cultura popular na formação do nosso País e entende que o fomento às atividades culturais é uma obrigação do poder público. Ele também nos alerta para o fato de que, ao contrário do que se afirma comumente, na internet não se pode achar tudo; é nos acervos e institutos que podemos encontrar as raridades e a informação com conteúdo. Há poucos anos, Assis perdeu a visão, mas, como ele mesmo diz, “só é cego quem quer, ou por conveniência”. Pensamos que seria muito mais rico preservar as marcas da sua fala, com poucas intervenções – se possível nenhuma – na narrativa oral. Também optamos por deixar apenas suas palavras, transformando nossas perguntas em subtítulos que dão nome às partes. A escolha pela oralidade fica como uma pequena homenagem à nossa cultura popular, que Assis Ângelo tão apaixonadamente enaltece.

Palavras-Chave: Instituto Memória Brasil; cultura popular; acervos musicais.

Abstract: Francisco de Assis Ângelo is a journalist, researcher, poet, and, amongst others, founded the Instituto Memória Brasil, an invaluable popular culture archive, stored in his apartment. The following text is the result of an interview that took place at the Institute, and used his lecture at the 1st Encounter of Discotheques as a guideline. Assis Ângelo does not mince his words when defending the importance of folk and popular culture in the formation of Brazil and he understands that stimulating and promoting cultural activities is an obligation of the public sphere. Assis Ângelo warns us that, contrary to what is commonly said, it is not possible to find everything on the Internet; it is within the archives, collections, and institutions that we will find rarities and information with content. A few years ago, Assis lost his vision, but as he says himself: “ blindness can be a choice, one of convenience”. We thought that it would be more valuable to preserve the traces of his speech, making only a few – if possible none – interventions in the oral narrative. We also decided to leave only his words, turning our questions into headlines for the individual sections. The choice of orality is a little homage to the culture of Brazilian people, which Assis so passionately praises.

Keywords: Instituto Memória Brasil; popular culture; music archives.

 

INSTITUTO MEMÓRIA BRASIL

Muito bem. O Instituto Memória Brasil, IMB, ele foi constituído organizadamente, oficialmente, em 2011. O acervo já existe há mais de 40 anos, 40 e pouquinho. Quer dizer, são mais de quatro décadas de recolha ou recolhimento de livros, jornais, revistas, discos em todos os formatos... Enfim, é um acervo muito amplo, muito rico, com muita coisa. Ele, então, foi criado

– a instituição – em 2011. O objetivo é naturalmente, preservar e difundir o acervo que construímos há quatro décadas. A ideia é que o acervo do Instituto Memória Brasil continue sendo consultado, sendo útil a quem dele precisa: estudantes, professores, público em geral. A ideia nossa é encontrar um caminho físico melhor para acolher todo esse material, e esperamos conseguir esse objetivo neste ano de 2019.

Existe reunião de formação, existe ata, existe todo o processo e documentação que uma instituição desse tipo, instituto, exige1. Então tem registros oficiais, temos advogados, nós temos conselho, nós temos... Enfim, é uma entidade cultural sem fins lucrativos que existe para fazer com que o Brasil seja melhor entendido, compreendido e descoberto. Até porque o Brasil já foi descoberto por muita gente, menos pelos brasileiros, não é? Nós, brasileiros, desconhecemos ainda a História de nosso País, não sabemos sequer a sua formação, as escolas dizem, ensinam, inclusive, que o descobridor foi Pedro Álvares Cabral, no dia 22 de abril de 1500, e, na verdade, a História mostra que em 1498 já tínhamos aqui a presença de estrangeiros. Está certo? Aqui primeiro vieram, sim, portugueses, vieram aqui italianos... o Américo Vespúcio, por exemplo, veio aqui em 1501. Quer dizer, chegou.. descobriu coisas, na Bahia, inclusive, o município de Caravelas, cujo nome foi ele mesmo que deu. Enfim, é uma história longa, um pouco complicada, ainda pouco esclarecida, portanto... Isso eu estou falando de uma coisa específica, mas tem a parte cultural, propriamente dita, que é igualmente desconhecida pelos brasileiros. E nós vivemos, naturalmente, de um modo triste. O brasileiro é triste. Ele brinca, brinca, brinca porque desconhece as suas raízes e tal, mas, a partir do momento que descobrir, talvez essa tristeza se transforme em alegria de verdade. Não só alegria em Carnaval, não é? Quer dizer, então o Brasil é rico, é grande, é maravilhoso, é um dos maiores do mundo, territorialmente falando. Populacionalmente também. É grande em todos os sentidos. Mas nós, brasileiros, desconhecemos, no rigor, a História deste País e a sua formação. É pena...

1 A fundação do Instituto Memória Brasil está documentada no portal Jornalistas e Cia., que pode ser acessado no link http://www.portaldosjornalistas.com.br/noticia/instituto-memoria-brasil-administrara-acervo-pessoal-assis-angelo (acesso em 12 de abril de 2017)

 

A CONSTRUÇÃO DO ACERVO

Eu nunca pensei em coleção, na verdade. Sempre pensei em arquivo e, a partir daí, acervo. Quer dizer, então, desde o tempo que eu morava na minha terra, João Pessoa, na Paraíba. Eu cheguei em São Paulo do dia 22 de agosto de 1976. E, quando eu vim para cá, eu já trouxe alguma coisa de lá: discos, alguns livros e tal e coisa... Mas são 40 anos. E o tamanho disso é algo em torno de 150 mil itens, que vão desde partituras aos milhares, fotografias históricas, aos milhares também... E quando eu falo milhares, eu falo de 8 a 10 mil partituras; cerca de 20 mil fotografias. E aí é muita coisa. É disco de 76 rotações, disco de 78 rotações, de 33, 45, CDs... Enfim, tudo o que você possa imaginar aqui tem. Foram peças escolhidas a dedo, compradas a dedo, no Brasil e no exterior. É interessante, porque lá no exterior existe muita coisa, culturalmente falando, do Brasil que nós, repito, neste ponto também, desconhecemos. Mas aqui nós temos muitos discos, muitas partituras, muitas coisas brasileiras que eu adquiri fora do País...

Tem folhetos de cordel, muito antigos, históricos, com a sua importância. São cerca de 3 mil folhetos de cordel. Muitos livros sobre cultura popular, incluindo literatura de cordel. São muitos milhares de discos em todos os formatos, como eu já falei, de 76 e 78 rotações, compactos simples e duplos, LPs, CDs, etc. Filmes, alguns antigos. Rolos, inclusive, do último filme do qual participou o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, em 1976 – eu acho que é isso –, chama-se Chapéu de Couro. Eu acredito que o filme seja esse. Muitos jornais antigos, livros também muito antigos, que tratam, tudo basicamente, de cultura popular. Evidentemente, nós temos a literatura de grandes autores brasileiros dos séculos 19 e 20, dentre os quais Machado de Assis, etc. Mas isso aí já não chegamos a falar em raridade. Mas há muita coisa rara aqui, no Instituto Memória Brasil, aqui no acervo do Instituto Memória Brasil, e todos os itens que você possa imaginar que dizem respeito à cultura popular nós temos aqui.

Eu tenho um disco de 76 rotações... tem uma faixa lá – são duas faixas – uma delas chama A Farofa, música em que aparece pela primeira vez o nome do Padre Cícero Romão Batista. E isso é um disco de 1902, então é uma indicação muito interessante para a história. Nós temos livros, também muito antigos, de histórias infantis de 200 e poucos anos. As raridades são muitas...

E no disco também tem muita coisa que saiu em primeira edição e desapareceu; outras coisas inéditas. Aqui eu tenho cerca de 1200 horas de áudio: eu entrevistando artistas, escritores, dramaturgos, poetas, cineastas, cantores, como Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Roberto Fioravante... muitos artistas de todas as épocas gravados em entrevistas feitas por mim. Repito, cerca de 1200 horas de áudio, eu entrevistando gente que ajudou a dar brilho à cultura musical, à cultura popular brasileira.

 

ORGANIZAÇÃO DO IMB

Bom, como sempre usei todas as peças que aqui estão, então foi fácil para mim porque eu fiz um arquivamento de acordo com o uso que eu ia tendo das peças aqui. Então ora em ordem alfabética, ora por gênero. Então dá para localizar... Não temos a catalogação normal, natural, universal, por algumas obviedades. O próprio espaço é pequeno para isso. Aqui é um lugar que tem 127 metros quadrados... Então não cabe. É um ambiente. Então isso tem que sair daqui. Essa é a minha necessidade, para que outros públicos façam o melhor uso possível daqui. Eu recebo gente de várias partes do mundo: estudantes – agora mesmo estou recebendo uma francesa... Então aqui é gente do México, gente da França, gente dos Estados Unidos, da Itália, de muitos lugares, do Chile. Ou seja, de países aqui do Cone Sul, da América Latina, e também da Europa, dos Estados Unidos, etc.

 

DIFUSÃO, EXPOSIÇÕES E DESDOBRAMENTOS

Nós produzimos discos – o último chama-se O samba do rei do baião, produção aqui do Instituto Memória Brasil. Nós fizemos uma grande ocupação na unidade Sesc Santana, em 2002, uma área de 350 metros quadrados. Nós contamos a história de São Paulo através da música, por exemplo. Nós temos aqui a grande, grande, grande parte das músicas que foram em homenagem ou simplesmente em citação à cidade de São Paulo. São mais de 3 mil títulos musicais. Uma pesquisa que eu demorei 23 anos para fazer. Então nós temos esses discos... São discos em todos os formatos também, partituras. Aí voltamos à velha história... Então, em vários formatos, nós temos o registro musical a respeito da cidade de São Paulo. São cerca de 6500 a 7 mil autores que compuseram, desde antigamente até os dias recentes, obras sobre a cidade de São Paulo. Dentro desse panorama, dentro dessa temática, nós contamos com muitos itens raríssimos, né? Da música brasileira e histórias da música brasileira, que vão de citações, por exemplo, a Rapaziada do Brás, que é a primeira música que traz como título um

bairro paulistano, que foi gravada em 1926. Nós entrevistamos o autor da letra, porque o autor da música morreu em 67 – eu estou falando de Alberto Marino e depois de Alberto Marino Jr. Ambos já faleceram. Era um maestro e compositor de formação erudita, o Alberto Marino. Ele morreu e virou nome de viaduto aqui em São Paulo. Essa música dele, Rapaziada do Brás, ganhou letra em 1960, de autoria do filho, Alberto Marino Jr., que era um promotor, era... Enfim, a família toda ligada ao Direito, né? E nós temos então a história de como foi feita essa música, para quem foi feita a música, a letra, de como aconteceu, a pedido de Carlos Galhardo, por exemplo, que era um argentino naturalizado, de grande voz e muito conhecido no Brasil, também já falecido. Nós temos, enfim, esses registros, inclusive gravados em áudio. Enfim, depoimentos do Paulo Vanzolini, da Zica Bergami, que, junto com o Alberto Marino, foram os três primeiros maiores clássicos da música de São Paulo, gravados, aliás, por nossa querida Inezita Barroso. Francisco... o autor de Perfil de São Paulo, Francisco de Assis Bezerra de Menezes, é o autor dessa música, gravada pela primeira vez por Silvio Caldas, que foi vencedora do concurso de música do quarto centenário de São Paulo, em 1954, promovido pela Prefeitura. Quer dizer, nós temos registros dele também, do Francisco de Assis Bezerra de Menezes, que era um advogado, uma pessoa de grande conhecimento jurídico, inclusive, gravamos com ele também – ele já partiu, está na eternidade. Enfim, entre essas 1200 horas gravadas com artistas, etc., que eu fiz, também se acha essa gravação, essa entrevista com Bezerra de Menezes. Existe também com Alberto Marino, Alberto Marino Jr., Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, que, pouca gente sabe, também foi compositor. Nós temos músicas... Ele fez música para São Paulo: Porque Amo São Paulo. É uma música muito bonita, que ele fez em 1954, que foi um período rico para a cidade de São Paulo, o quarto Centenário. Então foi o período que se compôs o maior número de músicas em homenagem a essa que é hoje a quinta ou sexta cidade mais evoluída, digamos assim, a maior de população e grandeza geográfica, que é a cidade de São Paulo.

 

O ACERVO E SUA VIDA PESSOAL

Eu sou paraibano de João Pessoa e cheguei em São Paulo no dia 22 de agosto de 1976. A princípio eu não vim para ficar, mas os bacilos de Koch me convenceram a ficar. Eu terminei me tratando aqui, aqui terminei ficando, em Campos do Jordão. Desenvolvi aqui a minha profissão, iniciada lá na Paraíba, de jornalista. Então trabalhei primeiro em vários jornais, TVs: Folha de S.Paulo, por exemplo, Diário Popular, Jornal da Tarde, Estado de S.Paulo, revista. Enfim, um monte. Então, desenvolvi aqui o meu trabalho de jornalista. Essa minha curiosidade

pelo desconhecido do meu país fez com que eu me interessasse mais ainda em saber a grandeza e a importância do Brasil. Então esse acervo, ele foi sendo construído aos poucos; quando dei por mim eu já tinha aqui milhares e milhares de peças, documentos, com relação ao Brasil. E ao Brasil que eu me refiro, às suas cinco regiões, né? Não só o Nordeste. E seus artistas. Não só os cantores, não só os compositores, mas os artesãos, os cordelistas, os cantores, cantadores, repentistas. Enfim, o rabequeiro, o artista popular, o artífice do dia a dia da cultura popular brasileira. Então, nesse ponto, até se mistura um pouquinho à minha vida. Eu não conseguiria apartar ou separar minha vida pessoal da cultura popular, até porque eu acho que a cultura popular é a digital de um povo. A cultura popular é a identidade de um povo. Então, a Dilma Roussef, quando assumiu o seu primeiro governo, em seu primeiro discurso, no discurso de posse, ela fez citação a uma frase minha que é exatamente essa, “A cultura popular é a identidade de um povo, é a digital de um povo”. Aí ela enfiou: “A cultura popular é a alma de um povo”. Tudo bem, mas poderia ter usado a minha frase correta e dado o crédito. Mas parece que é próprio dos nossos governantes não dar bola à cultura popular, à cultura brasileira, e a seus artífices, incluindo os seus artistas, né? Cantores, compositores, etc. E não só os populares, mas os eruditos também. E também aos autores, aos poetas, aos escritores. Enfim, ao cinema, aos atores, às atrizes, ao teatro. Quer dizer, esses artistas estão sempre à margem. Só são chamados quando há interesses políticos. Infelizmente é assim. Aconteceu com Luiz da Câmara Cascudo, a bela frase dele “O melhor do Brasil é o brasileiro” – isso saiu no governo do PT, do primeiro governo Lula, e essa frase foi cunhada sem a sua autoria definida. Portanto, fiquem sabendo que essa frase é do potiguar, nascido lá em Natal, o Luiz da Câmara Cascudo, com quem eu tive bons contatos. Ele nasceu em 1898, morreu com 80 e poucos anos. Eu o entrevistei, o acervo do Instituto Memória Brasil guarda ainda essa entrevista feita em fita K7. Essas fitas precisam ser digitalizadas. Aliás, todo o acervo do Instituto Memória Brasil deve, precisa ser digitalizado. Pergunto: quem poderá fazer isso? Eu, depois de construí-lo, me faltam recursos financeiros evidentemente. O Instituto Memória Brasil vive exclusivamente por intermédio do seu autor. É um instituto cujos membros não recebem nada, nenhum provento, e o seu fundador, que sou eu, presidente da entidade, também, evidentemente, não recebe nada. Muito pelo contrário. Quer dizer, é uma instituição que não recebe valores financeiros de nenhuma outra entidade, e tampouco de governo federal, estadual ou municipal. E tampouco da iniciativa privada. Ele existe, esse instituto, esse acervo, por, digamos, persistência, por insistência. Por teimosia do seu autor, que sou eu.

 

ACERVOS FÍSICOS NA ERA DIGITAL

De fundamental importância, ontem, hoje e sempre. Por uma razão simples: quaisquer que sejam as ferramentas advindas pós-internet ou a partir de já, pós-internet, esses instrumentos, essas ferramentas não existiriam se não houvesse institutos, se não houvesse acervos, porque não haveria acervo, digamos assim, digital, virtual, na internet. Quer dizer, o que há lá, nos YouTubes da vida, no Google, se não fossem bibliotecas, instituições outras que tratam de tudo, incluindo a cultura, não existiria esse acervo virtual que a internet oferece hoje no mundo inteiro. Então, a importância de uma instituição cultural evidentemente é enorme, e nunca deixará de ser. Evidentemente que o que tem aqui no Instituto Memória Brasil não está na internet. Tem alguma coisa, mas não está nem um terço. Então muita coisa está aqui. Quando isso vai para lá [a internet], não sei. Quero fazer... repito: quero que isso aqui ganhe um espaço físico fora daqui, para que haja um maior entendimento do povo brasileiro com relação à construção e à formação, e à descoberta do próprio País, incluindo, evidentemente, o cidadão, e a cidadania, e a cultura em todas as suas áreas. Da cultura popular à dança, ao cinema, ao teatro, à música erudita. Enfim, a todos os segmentos ou todos os itens que compõem o que nós chamamos de cultura. Cultura de um povo. Então é fundamental. Quero constituir, quero formar, quero criar um grande portal para esse acervo ser disponibilizado na internet. Não dá simplesmente para ir jogando, botando que nem lenha numa fornalha, não. É preciso um processo organizado, para que tudo isso vá para as pessoas entenderem melhor a cultura do nosso país. Quer dizer, então, um portal e um espaço físico maior do que esse, para um acesso maior. Essa é a minha vontade, é a vontade do presidente do Instituto Memória Brasil. Agora, a mim me parece que não há, por parte dos dirigentes, daquelas pessoas que nós elegemos para nos representar nas várias esferas da política brasileira, interesse. Não vejo interesse. É uma pena. Por outro lado, sou consultado por pessoas do exterior e não sei o que será, não sei o que vai ser do Instituto Memória Brasil depois que eu partir para a eternidade, depois que eu partir para o céu... virar nuvem, virar qualquer coisa aí, tá certo? Quer dizer, não sei o que vai acontecer. A minha necessidade já está dita. Mas, repito, quero que isso ganhe espaço físico maior e que tenha toda a atenção de quem precisa aprender um pouco o que sabemos.

“COM EDUCAÇÃO VEM A CULTURA. E NÃO TEM COMO DIZER O CONTRÁRIO! CULTURA E EDUCAÇÃO ANDAM, TÊM QUE CAMINHAR, FORÇOSAMENTE, NECESSARIAMENTE JUNTINHAS QUE NEM IRMÃOS...”2

2 Colocação de Assis Ângelo durante sua palestra no I Encontro Internacional de Discotecas, no dia 22 de julho de 2016.

Eu poderia até acrescentar um item aí também, pelo menos mais um. Saúde, né? Saúde, educação e cultura. Veja você, o Brasil estaria nutrido, estaria mais bonito, as pessoas mais bonitas. Saúde, cultura e educação. Pode ser o inverso também, a ordem dos fatores não altera o produto, não é verdade? Quer dizer, então quando eu digo isso é exatamente para reforçar a ideia de que um país que não tem pelo menos esses três itens, é um país fadado ao insucesso, à morte, à involução. Não é? Porque o cidadão que não conhece a sua origem, o cidadão que não sabe o que é cultura, o cidadão que não sabe o que é leitura, o cidadão que é analfabeto em todas as áreas – e áreas, especialmente, não estou nem me referindo à política. Porque analfabeto político é o que mais tem no Brasil. Então eu me refiro ao analfabeto, aquele que não sabe ler, não sabe escrever, ou se lê e escreve, escreve mal, não compreende o que está lendo e tampouco tem condições de escrever um texto legível. E me refiro também ao cidadão que não sabe o que é cultura. Cultura, em geral, não é só o folheto de cordel, não é uma leitura, não é ouvir uma música. É saber distinguir a importância disso. Do lixo para o luxo, talvez isso. Saber distinguir uma pérola, uma pepita, de uma pedra que a gente topa e cai na rua, não é? Saber fazer essa distinção. O Brasil é um país mal-educado, em todos os sentidos. Então, nesse ponto, é o ponto. Esse é o ponto que deve ser batido, que deve ser tocado, que deve ser discutido. A cultura popular é a digital de um povo. Um povo sem educação, sem cultura, é um povo doente, não tem saúde. Em nenhum sentido. E a prova disso é tão óbvia. Está aí, na frente da gente. Eu perdi os meus olhos, a visão dos meus olhos. Fiquei cego faz três anos mais ou menos. Mas quando eu falo algumas coisas, aí eu ouço aquela história “poxa, e eu não tenho como chegar à conclusão”. Poxa e ainda diz que o cego sou eu. Tá certo? Quer dizer, eu vejo tanta coisa errada, será que quem tem olhos para ver não vê a coisa louca, perdida, o trem descarrilhado que é o Brasil hoje? Essa é a história. Então, é necessário, em qualquer tempo, que se valorizem a educação e a cultura, se ensine, se forme, o cidadão de amanhã. O que será do cidadão de amanhã se está hoje tão ligado a games e outros divertimentos que a gente acha com tanta facilidade, se acha com tanta facilidade na internet. É preciso educar para que um país brilhe bonito no globo terrestre.

 

CULTURA E RESISTÊNCIA

A literatura de cordel ela passa a ser conhecida na virada do século, na metade do século 19 para o 20. O tempo formou grandes cordelistas, como Leandro Gomes de Barros, o pai da literatura de cordel no Brasil. A literatura de cordel veio da Europa. Os portugueses já foram buscar noutros lugares, mas foi em Portugal que houve uma maior atenção à literatura de cordel. Na França, no Chile; na Alemanha também. Alguma coisa referente ao que chamo de parecido com o que hoje nós chamamos de literatura de cordel. Mas foi no Brasil que a literatura de cordel – como a cantoria de improviso – feita pelo repentista tocador de viola, foi aqui no Brasil que elas – essas duas coisas, né? – a literatura de cordel e a cantoria de repente melhor se desenvolveram. Foi aqui no Brasil, especialmente no Nordeste, especialmente em Pernambuco, Paraíba, um pouquinho na Bahia, em Alagoas... Então essa cultura, a cultura da literatura de cordel e do repentismo, ela estava em baixa no final dos anos 90. Ela ainda está em baixa. Mas, nos anos 2000, nós realizamos dois concursos de literatura de cordel. 410 mil folhetos nós distribuímos gratuitamente em toda a rede escolar do Estado de São Paulo. 410 mil! Então, esses folhetos foram levados para as bibliotecas da rede estadual. Tomara que eu consiga voltar a fazer isso de novo. Isso foi em 2001 e 2003.

Em 94, fizemos a coleção Som da Terra, sobre moda de viola3. Em 1997, nós presidimos o primeiro campeonato brasileiro de poetas repentistas, aqui em São Paulo, realizado com várias eliminatórias no teatro Denoy de Oliveira, no Bixiga, e a grande final no Memorial da América Latina, com uma repercussão internacional muito bonita, elogiável. Como é que está hoje? Está um pouquinho meio bamba, eu vejo. Mas estava pior a literatura de cordel aqui. Aqui nós temos alguns grandes cordelistas, como o Marco Haurélio, por exemplo. É uma figura muito interessante, muito criativa. Nós temos vários cordelistas aqui. Moreira de Acopiara, o Gomes de Sá, nós temos as figuras interessantes. Mas é preciso que isso se incentive, essa máquina volte a rodar, essa moenda volte a produzir. Cultura, leitura, leitura de cordel, de folheto de cordel. É preciso que haja uma manutenção disso, incentivando e descobrindo novos talentos. Na área de xilogravura também. Na área da música, o sanfoneiro. Precisamos trazer de volta esses artistas desconhecidos, nos fundões do Brasil. Agora, se não há interesse, do poder público, há de quem? Da iniciativa privada? É um caminho, mas é preciso que nos juntemos.

3 Assis Ângelo foi autor de diversos encartes da Série Som da Terra, lançada em 1994 pela Warner Music. Fonte: Dicionário Cravo Albin (fonte: http://dicionariompb.com.br/assis-angelo/dados-artisticos)

É preciso que nós mostremos a importância da cultura brasileira e na sua parte mais visível, que é a cultura popular. A cultura erudita evidentemente é de uma importância fundamental e nós temos grandes eruditos no Brasil. Alguns já partiram, como o Carlos Gomes, de Campinas, em São Paulo, que, em 1870, estreou a sua primeira e principal ópera Il Guarany, no teatro Alla Scala de Milão, uma obra baseada num livro de um cara chamado José de Alencar, um cearense. Antonio Scalvini fez o libreto da ópera que o mundo todo conhece. Caruso chegou, inclusive, a gravar a ária do Guarany. Quer dizer, nós somos ricos em tudo. Na cultura popular, na cultura erudita, no seu povo pacato. Pacato não! O Brasil é um país briguento, brigou muito. Existe um livro chamado Dicionário das Batalhas Brasileiras, de Hernâni Donato, que é fundamental que se leia, para ver que o Brasil lutou muito, brigou muito. O Brasil invadido por Portugal; o negro trazido na marra, de fora, para ser escravo aqui no Brasil, junto com os índios – os nossos primeiros habitantes, os donos dessa terra. Essa história tem que ser mostrada, essa história tem que ser dita.

Portanto, está mais do que na hora, de a gente voltar a mostrar a cultura popular para um maior número, e incentivar para que ela não vire apenas amostra de museus, como hoje há na França. Aliás, não custa lembrar que até o século 19, o hino nacional era a Marselhesa. A Marselhesa se tocava em tudo quanto era solenidade pública no Brasil. Então, precisamos mostrar isso, falar disso, e mostrar o real país mesmo, quebrado como hoje se acha. Economicamente, politicamente, é essa loucura, esse chafurdo que a gente escuta, né? O alarido que está aí nas redes. Enfim, está na hora de o Brasil ser descoberto pelos brasileiros, os brasileiros cuidarem, de fato, desse país tão bonito chamado Brasil.

 

CONCURSOS DE LITERATURA DE CORDEL E REPENTES

Eu achei, na ocasião, naquela ocasião, em 2001, por ali, eu me achei na obrigação de provocar os cordelistas do Brasil – foi um concurso de alcance nacional, tá certo? Então, na época, nas duas ocasiões, 2001 e 2003, eu acho que foi isso, eu era assessor do Metrô de São Paulo e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Eu cuidava do Departamento de Imprensa no Metrô. E na CPTM, eu cuidei da área, por sugestão minha à diretoria, quando me chamou para fazer um trabalho lá eu falei que eu gostaria de implantar algo que tivesse a ver com o dia a dia do paulistano, o dia a dia do usuário, referente à cultura popular. E assim foi

feito. Foi criada uma área para cuidar exatamente da cultura popular, para falar da importância da cultura popular. E isso era o quê? Os eventos que eu provocava nas estações. Havia eventos musicais, exposições, palestras, enfim, envolvendo os usuários e a população em geral. Então a minha provocação para os cordelistas foi que se falasse do transporte público. Foi um tema. E o outro tema, livre. Eram dois temas, tanto num concurso quanto no outro. E esse tema livre ia desde os velhos temas do passado, como o pássaro que voa, como, enfim, a fantasia. Nós pegamos a fantasia e a realidade e pusemos como desafio para os cordelistas. E, em cima desses temas eles desenvolveram os seus folhetos de cordel. Nós recebemos mais de 200, 300, não recordo mais; centenas. Algumas centenas de inscrições do Brasil inteiro, do Piauí à Paraíba, São Paulo, Rio de Janeiro, enfim, vários estados se fizeram representar nesses concursos de literatura de cordel, com seus cordelistas. Foi uma surpresa muito grande o que nós obtivemos com isso. O Final, repito, foram 410 mil folhetos de cordel. Juntos os dois concursos dariam uma carreta de seis toneladas de papel! E tudo distribuído gratuitamente na rede pública do Estado. E com premiação, evidentemente, para os três primeiros lugares. Portanto, esse material, esse kit de cultura, de cordel, se acha até hoje nas bibliotecas. Quer dizer, formando, mostrando para a criança, para o adolescente a importância da cultura popular e do folheto de cordel especialmente.

Quanto ao concurso de repentista, foram milhares – nós trouxemos 102 duplas eu acho, 102 duplas de cantadores repentistas de vários estados brasileiros. E o final foi, repito, no Memorial da América Latina, com um público enorme, o auditório... não coube, no auditório não coube todo mundo, foi todo preenchido – lá eu acho que era mil e não sei quantas pessoas –, e foi instalado, portanto, um telão fora do Memorial para o público que não conseguiu entrar, acompanhar o que estava acontecendo lá. Isso resultou num CD duplo4, que certamente se acha ainda hoje por aí a fora, porque nunca saiu de catálogo. O que mostra a importância desse festival, desse concurso, cujo ganhador foi um cidadão pernambucano chamado Oliveira de Panelas.

4 O CD duplo contendo a final do I Campeonato Brasileiro de Poetas Repentistas foi lançado pelo selo CPC/UMES sob o título O Desafio do Repente.

Periodicamente, as escolas fazem trabalhos de folhetos de literatura de cordel, com crianças e adolescentes. Os cordelistas têm ido lá. Como o – já citado aqui – Moreira de Acopiara, e outros, né? É bom que se diga que toda essa coisa, dos dois concursos de literatura de cordel e

do campeonato de repentistas, foi amplamente coberta pela imprensa, internacional, inclusive, e se acha certamente na internet e tal. Mas não foi só isso não. Nós fizemos concursos de literatura de cordel no Centro de Tradições Nordestinas, aqui em São Paulo. Nós fizemos lá também o primeiro campeonato de repentistas, junto com o Téo Azevedo e o Paulo Vanzolini – isso resultou em LP também. No interior de São Paulo. Fiz muitas palestras, e ainda faço, sobre cultura popular e literatura de cordel.

 

“A MEMÓRIA É O QUE FAZ O HOMEM... ILUSTRE SE ILUSTRAR. É O SABER, É O CONHECIMENTO QUE NOS FAZ GOSTAR DA NOSSA CASA...”5

5 Colocação de Assis Ângelo durante sua palestra no I Encontro Internacional de Discotecas, no dia 22 de julho de 2016.

E da nossa cara! É, entendeu? Quer dizer, um homem sem memória é um ser... sem memória... o que é isso? Nada, não é? Quer dizer, uma pessoa que não tem memória, não tem nada. Um país que não tem memória não tem nada. Um país que não tem biblioteca não tem nada, é como uma cabeça oca. Um país cujas bibliotecas não têm público, não tem nada, não existe. E em São Paulo, por exemplo, estamos em São Paulo. O Estado de São Paulo são 645 municípios, me parece que é isso. Muitos e muitos municípios de São Paulo não têm biblioteca. 99,9% da população dos municípios que formam o Estado de São Paulo não têm casa de cinema, não têm cinema, não têm nada. Quer dizer, estamos ainda no tempo da pedra lascada. O professor finge que ensina e o estudante finge que aprende. No final, vai para o “pancadão”, né? No final, tudo termina em pancadão. E, aqui, em duplo sentido, né? É porrada e burrice. É esse o país que estamos vivendo hoje. Com governador roubando e preso. Com senador roubando e preso. Ainda bem, porque antes nem isso acontecia. Roubava e roubava e roubava e ficava por isso mesmo. Agora tá... Rouba, né? Atualizando a máxima do Adhemar de Barros, ele “rouba, mas faz”, só que agora rouba vai preso, né?

 

BLOG DO ASSIS ÂNGELO

O blog do Assis Ângelo. Muita gente nos acompanha. É um espaço que eu uso, quase diariamente para mostrar um pouco disso que eu estou falando para você. Para falar de cultura brasileira e falar de tudo! Não é? Porque tem muito aquilo: “mas o cara... Ele fala de vários assuntos. Por que não faz só cultura popular?” Não senhor. Eu falo de tudo, eu sou cidadão. Eu sou alfabetizado, politizado, um brasileiro que ama este país e procura entender o

país de todas as formas. Na área da economia, na área da política, na área do divertimento, incluindo futebol, literatura, poesia. Eu procuro transmitir o que eu aprendi, tá certo? Quer dizer, então, o Machado de Assis, no século 19, ele não se atinha só a romances. Aliás, foi o Machado de Assis, carioca, nasceu em 1839 e morreu em 1908... então ele começou fazendo poesia, depois partiu para o conto, depois para o romance. Na primeira parte ele se desenvolve intelectualmente como romântico e depois ele inaugura uma história chamada de realismo, não é? Realismo. Então ele, o nosso maior escritor, foi funcionário público, jornalista. Só na Gazeta de Notícias ele publicou em três anos mais de 500 textos – naquela época era à pena, não era internet nem máquina de escrever. Quer dizer, e era um observador atento à vida política brasileira. Ele cobria o Senado, por exemplo. Ele tem peças maravilhosas, crônicas maravilhosas sobre política da sua época. E ele no Senado. O Senado brasileiro foi inaugurado em 1826 e a obra do Machado de Assis reflete com muita exatidão – a história mostra isso – a vida, o tempo em que ele viveu, na terra em que ele viveu. Basicamente no Rio de Janeiro. Ele não saiu do Rio. Ele não saiu do Brasil. Viajou para aqui e para acolá, mas para fora do país ele não viajou.

Quer dizer, então, o blog, ele reflete isso, esse leque de coisas que eu tenho, que eu capto, que eu transmito. Eu sou um transmissor de informações, de cultura, do que eu aprendi. Então o blog, ele existe para isso. E eu tenho certeza de que as pessoas que me leem sabem exatamente o que eu estou dizendo. Com isso elas se completam. Quer dizer, não é um blog, no rigor, de bobagem. O blog do Assis Ângelo é um blog que se pretende rico em conteúdo. É chato, talvez, eu mesmo dizer isso, mas não tem problema nenhum. Qual é o problema? Está para todo mundo abrir, é só abrir lá “blog do Assis Ângelo” e vai ler. E leiam. E façam perguntas. Não precisa elogiar, eu quero crítica. Eu quero perguntas, e é assim que é. E é assim que tem que ser feito. Existe então o blog do Assis Ângelo e também a página do Instituto Memória Brasil.

Tem uma página do Instituto Memória Brasil no facebook. Agora, não estou escrevendo, não voltei ainda a escrever, porque, como foi dito há pouco, eu fiquei cego, perdi a luz dos meus olhos com um descolamento de retina. Me submeti a nove cirurgias, cada uma delas de cinco a sete horas, com anestesia geral... Morri nove vezes, entre outras tantas, que já morri outras vezes. E estou ressuscitando de novo. E a cultura popular não pode morrer como

eu morri. E se morrer tem que voltar à tona. Que nem Dom Quixote, que nem Sancho Pança. Caiu se levanta...

 

CULTURA POPULAR E CULTURA ERUDITA

Veja: o Machado de Assis nasceu em 1839; o Leandro Gomes de Barros nasceu em 1865 e morreu em 1918. Então foram contemporâneos. Detalhe: o Leandro Gomes de Barros na Paraíba, no Nordeste, e o Machado de Assis no Rio de Janeiro, no Sudeste. Uma coisa muito curiosa. A beleza, o rigor com que Leandro Gomes de Barros se expressava na poesia, na crônica poética, publicada em folhetos, o mesmo fazia o Machado de Assis nas páginas dos jornais e revistas da sua época. Ele publicou em muitos jornais do Rio de Janeiro, e revistas também. E isso é bom que se diga. Então, o Leandro Gomes de Barros foi o mais completo cordelista que o Brasil já teve. Cordelista é o poeta de bancada, é o que escreve. E o Machado de Assis fazia a mesma coisa. Também fazia poesia, fazia romance, contos, histórias. Então, a crônica do Leandro é riquíssima, registra um período muito bonito da vida brasileira. Detalhe: o Leandro Gomes de Barros também nunca deixou o Nordeste. Ele nasceu na Paraíba e morreu em Recife. E o que representa de autenticidade e criatividade o Leandro, representa também o Machado. O Machado na esfera erudita, digamos assim, do texto rebuscado e belo. E o mesmo pode-se dizer do Leandro. Popular com um viés de beleza erudita.

 

Elas se completam, exatamente isso. Perfeitamente. O popular com o erudito. Leandro; Machado. Perfeito. Este é o Brasil que precisa ser descoberto. O Brasil na sua riqueza total, do Carlos Gomes ao Patativa do Assaré, do Eleazar de Carvalho a Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Manezinho Araújo. E os grandes repentistas, sem esquecer o Villa-Lobos, na parte erudita, que foi, de certo modo, também um improvisador, né? Como maestro e compositor, ele bebeu no poço da cultura popular. Ele foi buscar, por exemplo, no Rio Grande do Norte, no final dos anos 20, peças temáticas da cultura popular... “Ô mana deixa eu ir...” [cantando], do sertão... Lá no Rio Grande do Norte. É a quarta peça, o quarto movimento, quarta cena que se acha nas Bachianas, por exemplo. Ele foi buscar, é claro, em Bach, a inspiração para as Bachianas, mas ele foi buscar também inspiração, digamos assim, trabalho, motivação, no Nordeste brasileiro, para formar a sua belíssima obra, especialmente as Bachianas. O Luiz Gonzaga, na parte popular, foi buscar no vaqueiro, no cantador, no cordelista, no beato, no cangaceiro, os motivos para a formação da sua obra que se constitui

de 625 títulos musicais, né? Quer dizer, então, o Luiz Gonzaga, ali, da mesma maneira que o Ariano Suassuna, foi buscar no cordelista e no repentista motivo, ou inspiração para constituir a sua obra maravilhosa, que começa na metade dos anos de 1950, né? A mulher vestida de sol. Não podemos nos esquecer disso nunca: a cultura popular é de riqueza extremada. Não é só no Brasil. Mas o Brasil, estamos aqui. O Shakespeare foi buscar na cultura popular lá da sua região inspiração para sua obra. Ou seja, a cultura popular é de uma riqueza imensa e aqui no Brasil a cultura popular é sem tamanho. Aqui recebemos influência de muitos países, inclusive na língua, na culinária, na vestimenta. Nós recebemos tudo isso. Porém, essas influências, com o tempo, elas foram ganhando uma forma muito especial que a gente pode carimbar como brasileira. A brasilidade nossa é sem tamanho. O mundo conhece a música brasileira, mas parece que nós não conhecemos a nossa música e não conhecemos as outras tendências culturais. É uma pena. Está na hora de abrirmos os olhos. É bom que se diga que é a forma de se ver a vida de todas as formas. A forma de se ver a vida de todas as formas, inclusive sem luz nos olhos. Só é cego quem quer, ou por conveniência.

 

O REPENTE E O CORDEL NO ACERVO DO IMB

Tenho. Tenho bastante, claro. Exatamente. O Leandro, ele não foi quem mais escreveu e publicou folheto de cordel, né? Mas ele foi um dos que mais escreveram poesia publicada em folheto. Catalogados existem cerca de 300 ou 400. A casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, tem um acervo muito interessante sobre a obra de Leandro Gomes de Barros. Mas é preciso, além da obra dele, que se catalogue também a obra de outros poetas populares, né, de outros cordelistas. Está na hora de fazer isso aí, né? O Patativa do Assaré, ele começou a vida como um repentista, mas logo depois deixou a viola de lado e dedicou-se à poesia, com o formato, na forma de fazer, parecida com aquela de cordel. Se você me perguntar, Bruno, “a obra de Patativa tem a ver com a literatura de cordel?” Mas é claro que tem. Ele se desenvolvia em quadras, em sextilhas, em septilhas, em décimas, entendeu? Patativa, neste campo, ele foi muito rico. E cheguei a perguntar para ele sobre isso daí, porque, aliás, ele não seguiu a vida de cantador repentista. Ele ironizou, e disse: “eu me achava já, àquela época, melhor como poeta de bancada do que poeta de improviso à viola”. Mas ele enfrentou bons violeiros. E o registro do início da obra dele como repentista você vai achar num livro muito interessante de Luiz da Câmara Cascudo, chamado Vaqueiros e Cantadores, de 1939. Ali, o Patativa aparece como Antonio Patativa, que depois virou Patativa do Assaré. Então o Câmara Cascudo, inclusive transporta, ele registra, partes dessa cantoria. Luiz da Câmara Cascudo é

outra figura incrível, que merece ser revista e devidamente reconhecida. É uma figura muito importante. Mas não só ele, também tem o Barroso, também tem o Veríssimo – e aí não me refiro ao Veríssimo, o escritor lá do Rio Grande do Sul, muito bom também, como seu filho.

No cordel se usa muito o formato, o gênero sextilha. É o segundo verso rimando com o quarto e o sexto. O primeiro, o terceiro e o quinto são livres. São versos de sete a onze sílabas, né? Tem que ter métrica, tem que ter oração e tem que ter rimas, evidentemente, tá certo? Sem essas três coisas não se faz uma boa poesia. Tampouco para o cordel. Porque tem que ter ritmo, tá certo? Agora, o repentismo é muito mais amplo. No repentismo nós temos... sei lá... mais de uma centena de formas. Sextilhas, septilhas, martelos agalopados, beira-mar, gemedeira, gabinete. São muitas e muitas as modalidades no mundo da cantoria. Eu tenho um livro publicado chamado A Presença dos Cordelistas e Cantadores Repentistas em São Paulo6. Eu conto um pouco da história do cordel e do repente, né? Quer dizer, uma parte disso também está no filme Saudade do Futuro, que é uma produção franco-brasileira, é um filme muito premiado na Europa e nos Estados Unidos. E detalhe: nunca, nunca lançado nos cinemas brasileiros! Para se ver a importância que se dá à cultura brasileira, à cultura popular. É uma pena, é uma pena, é uma pena. A cultura popular tem que estar nas escolas. Não precisa ser matéria obrigatória, curricular. Mas tem que estar lá. É preciso que saibamos o que é uma sextilha, uma septilha; é preciso que saibamos quem foi o Castro Alves, que fazia poesia, muita poesia – na modalidade repentista e na modalidade cordelista! Ele fazia muita sextilha, e fazia com muita categoria. E essa forma vem de Portugal, vem da Itália, né? Quer dizer, os sonetos são italianos, a origem do soneto é italiana. A sextilha, a gente pode até dizer que, eu me arrisco a dizer, veio de Portugal, com Maria Barbuda e com o Sardinha, que era o seu parceiro de repente de viola. Eu localizei muitas informações sobre a Maria Barbuda, nascida no século 19. E, para mim, foi uma surpresa descobrir que foi uma grande repentista, uma grande cantadora de viola feita... de improviso, poesia de improviso, lá em Portugal. Eu achei um livro lá em Portugal sobre ela, um livrinho pequenininho sobre ela e sobre o seu parceiro. Enfim, é preciso procurar para a gente achar o caminho bom para se trilhar. Sem um bom caminho a gente se perde. A gente tem que ter um bom caminho. Sem um bom caminho, repito, a gente se perde. E repito também: não se vê só com os olhos. Com a memória; com interesse; com vontade. No Brasil, o político rouba para se eleger. Depois, eleito, continua roubando. Uma

6 ÂNGELO, Assis. A presença dos Cordelistas e Cantadores Repentistas em São Paulo / Assis Ângelo. – São Paulo: IBRASA, 1996.

loucura isso, né? Quer dizer, evidentemente que não são todos. Mas a grande maioria. Está provado isso. E não é de hoje não. A prática é antiga, e conto mais...

 

DESAFIOS PARA OS ACERVOS NO SÉCULO 21

Televisão engorda, internet engorda; andar faz bem. Que tal irmos hoje ao Centro Cultural? Que tal hoje irmos à Biblioteca Mário de Andrade? Que tal hoje irmos ao Instituto Memória Brasil? Sobre os outros institutos eu não posso falar, mas, grosso modo, eu posso dizer que é nesses ambientes que se acha a cultura. A cultura do mundo. A internet? Ok, bom, mexamos, procuremos. Mas é um complemento. Se não souber pesquisar na internet, a pessoa morre na praia. E vai fazer um parangolé enorme, complicado. É pesquisando, é com o livro na mão, é lendo, é estudando e perguntando que a gente melhor desenvolve um texto ou uma história. Então, acho que é obrigação de todas as esferas governamentais, ou seja, o município, o estado e o federal, que se desenvolvam campanhas para que se tire da frente da televisão, da frente da internet, as pessoas e as levem para os ambientes culturais, incluindo cinema, incluindo teatro. Biblioteca? Fundamental.

 

IMPORTÂNCIA DO PODER PÚBLICO E A ESPERANÇA NO PORVIR

O poder público tem obrigação! Não é importância. O poder público tem obrigação de provocar essas campanhas. De fazer com que as pessoas leiam. O paulista Monteiro Lobato cunhou uma frase fantástica: “quem lê mais sabe mais”. Portanto, está na hora de o Brasil saber mais, de os brasileiros saberem mais. É fundamental que saibamos a vida que vivemos e o lugar em que nascemos, e que vivemos também, não é? Quer dizer, é aquela história: “procurou, acha”. E nada melhor do que procurar numa biblioteca, num instituto, num acervo, num ambiente de cultura, o que se quer para se autoilustrar e passar para a frente o que está aprendendo. É por aí. Mas repito: é pena. Mas, nós, seres humanos, somos movidos pela esperança, não é? Acho. Somos movidos por emoção, por esperança, pelo porvir. Tomara que não percamos de vez esse hábito que está incrustrado em cada um de nós.

 

Olha, o futuro de qualquer país, de qualquer nação, está em quem está chegando. Na criança. É preciso ensinar a criança, educar a criança, para que essa criança se torne um bom cidadão. Uma pessoa sábia, conhecedora do seu ambiente, das pessoas com quem convive...

que aprenda, saiba o que é estudo, saiba o que é cultura. Cultura; culturas. Fundamental. O que dizer mais? A minha esperança por um país melhor é muito grande. Da minha parte estou fazendo o que me toca, o que me é possível. Tomara formar um time bem grande de pessoas que pensem não necessariamente como eu, mas que tenham pensamentos próprios e queiram também fazer com que este país seja um país que nos dê orgulho. Para quem está e para quem vai vir. E quem vier, que traga a vontade, a fome do saber, a fome do conhecimento. Um país bonito se forma com educação e cultura. A saúde é fundamental. Saúde, educação e cultura. Cultura, educação e saúde. É isso, nada mais a dizer. Tomara que eu consiga continuar levando para a frente a crença que adquiri com o correr do tempo: a crença por um país melhor. Vamos ver se a gente aprende a votar e escolher nossos representantes, sempre. É preciso que nos politizemos. Um país analfabeto, um país de analfabetos é um país muito triste, uma nação triste. É lamentável. Tá na hora de o Brasil brilhar. Viva o Brasil!!!

 

POEMA DOS OLHOS (ASSIS ÂNGELO)

Tu me olhas... tu me olhas... tu me olhas

Eu te olho,

não te vejo

Tu me tocas,

eu te vejo

Eu vejo com teus olhos

E caminho com meus pés

É teu meu pensamento

Eu sou quase quem tu és

Neste mundo meio torto

De Marias e Josés

Os teus olhos me trazem

Imagens da Natureza

O movimento das águas

O fluir da correnteza

O voar dos passarinhos

E de Deus toda grandeza

Os teus olhos são meus olhos,

São eles minha alegria

São eles a bússola

Que me levará ao dia

Que guarda em segredo

As cores da fantasia

Sim. Teus olhos são meus olhos

Com eles eu vejo cores

Com eles eu vejo tudo

Com eles eu vejo flores

Com eles eu vejo Deus

Perdoando pecadores

Sem teus olhos eu não veria

Rumos na escuridão

Esperança no porvir

Ao cantar uma canção

Sem teus olhos eu não veria

Luz, fé, paz, amor e emoção

E não veria também

Estrelas no céu brilhando

A Terra botando flores

No parque crianças brincando

E cenas engraçadas

Como um gago bêbado cantando

Em resumo, eu não veria

Luzes na escuridão

Esperança no porvir

Ao cantar uma canção

Os teus olhos são para mim

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