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“Vontade de viver sem chiar”
16/06/2020 09:57 em Cultura

De SP, Assis Ângelo fala sobre projetos, como a adaptação para ópera de cordel de ‘Os Lusíadas

Por: Guilherme Cabral

A princípio do que era de se esperar, o jornalista, pesquisador, radialista e escritor paraibano Assis Ângelo, que está radicado há 45 anos em São Paulo, ficou abalado quando, em 2013, perdeu totalmente a visão, em decorrência do descolamento da retina.

“Entrei numa encruzilhada quando perdi a luz dos meus olhos. Vou fazer o que agora? Fico vivo ou me mato. Morrer é natural, mas procurar a morte não é natural. Entrei num parafuso, algumas pessoas à minha volta me deixaram e fiquei só”, confessou. Mas houve a reação. “A cegueira não é o fim. Na arte, na literatura e na filosofia, reencontrei a vontade de viver sem chiar, como dizemos no Nordeste. Jamais lamentarei qualquer coisa na vida, que é uma graça e é uma dádiva. Tinha que ocupar o tempo e aí passei a ler muito e a ouvir”.

E assim o fez. Por conta do problema visão, passou a prestar por telefone informações aos interessados em saber sobre o acervo que tem no Instituto Memória Brasil, que criou em 2001, e no final do ano passado, concluiu o projeto de adaptar para ópera popular de cordel a obra épica Os Lusíadas, de Camões (1524-1580). 

“Transformei Os Lusíadas em sextilhas, que tem mais de mil versos. O título é A Fabulosa Viagem de Vasco da Gama no Mar - Adaptação Livre d’Os Lusíadas para Canto e Cordel. É uma ópera popular que tem apresentação de Oliveira de Panelas e pretendo levar ao público, no teatro, em 2022, quando se completarão os 450 anos da publicação da obra, ocorrida em 1572. Camões morreu oito anos depois e pobre, mas deixou uma obra riquíssima. É a primeira adaptação de livro que fiz em minha vida. Acredito ser, no mundo inteiro, a primeira adaptação desse livro, em versos de sextilhas, feita por um cego”. 

Ângelo já tinha lido a obra de Camões, mas, para realizar o projeto, ouviu em áudio o livro, entregue por uma de suas filhas, que o ajuda enviando títulos nesse formato. Além da encenação, ele antecipou que pretende publicar o cordel em formato de livro de arte luxuoso, com um disco de narração, interpretação e trilha sonora.

A partir do início da quarentena, Assis aproveitou o tempo para escrever quatro folhetos de cordel. O primeiro é Covid-19: Piolho do Cremunhão faz o Mundo Todo Tremer. “Cremunhão é o próprio demônio”, comentou Ângelo, que se inspirou na crise sanitária e na atual conjuntura política do Brasil para produzir os outros folhetos. Repórter Entrevista Piolho do Cremunhão foi o segundo título e, depois, veio o folheto Serpente Quer por Ovo no Coração do Brasil. “Faz referência ao filme sobre o nazismo O Ovo da Serpente, lançado em 1977, com a atriz Liv Ullmann no elenco. A serpente é alusão ao Bolsonaro. Ele está com o ovo no colo chocando. O ovo que é a ditadura, mas a sociedade organizada não vai deixar”.

O quarto cordel é Jornalismo e Liberdade nos Tempos de Pandemia, que tem 60 estrofes, e foi publicado na edição especial do Jornalistas e Cia., em 1° deste mês, no Dia da Imprensa. Trata-se, segundo ele, do newsletter mais antigo do Brasil e para o qual colabora com a coluna semanal Pérolas. “O objetivo foi o de discutir o futuro da imprensa no Brasil depois da pandemia”. 

Outro projeto tem a autoria de outros artistas, como Elba, Zé Ramalho e o ator Jackson Antunes: a gravação de um disco com 12 músicas do compositor Noel Rosa (1910- 1937). “É um dos maiores letristas da MPB e que deu forma ao samba no Brasil”, definiu. “Foi o marco do samba e compôs cerca de 230 canções e tem uma obra fundamental. Quero pegar todos os meus cerca de 15 livros, quase todos esgotados, juntar todos numa colação e distribuir nas bibliotecas do Brasil. Entre os títulos estão A Presença dos Cordelistas e Cantadores Repentistas em São Paulo, O brasileiro Carlos Gomes, além de O Coronel e a Borboleta e Outras Histórias Nordestinas

Quanto ao Instituto Memória Brasil, que funciona em seu próprio apartamento de 127 metros quadrados, Assis Ângelo também possui projeto para o acervo de cultura popular, que reúne mais de 150 mil itens, entre discos, livros, partituras, jornais e fotografias. “Não é um espaço apropriado. Quero que seja transformado num museu e vá para um lugar próprio, onde possa ser visitado por pesquisadores, estudantes e outras pessoas”.

Desde a cegueira, Assis não recebe mais visitas monitoradas, mas fornece informações por telefone aos interessados. “Lamento profundamente não poder mais atender, pois não tenho como puxar um disco, por exemplo, para orientar alguém”, observou o pesquisador, que conta com a ajuda de dois universitários para escrever os seus textos. 

ssis Ângelo deixou João Pessoa em agosto de 1976. A sua última visita ao Estado aconteceu em 2016, a convite do reitor Rangel Júnior, para participar como palestrante sobre cultura popular nas comemorações dos 50 anos de fundação da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). “A saudade é grande. Tenho muita vontade de voltar à Paraíba e estou aberto a convites de quaisquer instituições, pois estou louco para passar um pouco do que aprendi”, confessou ele, que também foi colunista em A União nos anos 1970.

Fonte: A União

 

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